Para alguns pais, o início do ano letivo vem acompanhado de uma cena difícil: a criança chora, se agarra, pede para não entrar na escola ou tenta negociar a volta para casa. Isso costuma acontecer justamente no momento da separação — na porta da escola, no corredor ou ao entrar na sala.

Esse tipo de reação não significa que a escola seja ruim, que a criança não esteja pronta ou que algo esteja “dando errado”. Na maioria das vezes, trata-se de uma dificuldade específica com a separação, intensificada pelas mudanças recentes de rotina e pela necessidade de se desligar da presença dos pais.

O que a criança vive nesse momento

Na hora da despedida, o desconforto da criança é real. O corpo reage antes que ela consiga organizar pensamentos ou palavras. Choro, tensão e recusa são tentativas de manter por perto aquilo que traz segurança: a figura de apego.

Por isso, esse momento exige menos explicação e mais apoio emocional. A criança não precisa ser convencida de que a escola é boa; ela precisa sentir que os adultos acreditam que ela consegue atravessar aquele desconforto.

Algumas atitudes dos pais que fazem diferença no momento da separação

  • Mantenha uma despedida clara, breve e firme.
  • Evite prolongar o momento com negociações, promessas ou voltas repetidas.
  • Valide o sentimento (“Eu sei que é difícil”), mas sem abrir espaço para dúvidas (“Talvez você volte”).
  • Transmita confiança na escola e nos profissionais, mesmo que por dentro você esteja inseguro.

Quando a despedida se estende demais, a mensagem que chega à criança é que aquele ambiente talvez não seja seguro o suficiente – e isso aumenta a ansiedade, em vez de aliviar.

O que costuma atrapalhar (mesmo sem intenção)

  • Ameaçar ou pressionar
  • Comparar com outras crianças
  • Prometer recompensas exageradas
  • Permanecer escondido “caso precise voltar”

Essas atitudes mantêm a criança presa à ideia de fuga, dificultando que ela se reorganize emocionalmente dentro da sala.

Separar-se também é uma aprendizagem

Aprender a se separar é parte importante do desenvolvimento emocional. Quando o adulto sustenta esse momento com firmeza e afeto, ajuda a criança a construir confiança em si mesma e no mundo fora de casa.

Com o tempo, a maioria das crianças atravessa essa fase e passa a entrar na escola com mais tranquilidade. O desconforto inicial não precisa, e não deve, se transformar em sofrimento prolongado.

Quando é hora de buscar ajuda

Se o choro e a recusa persistem por muitas semanas, se se intensificam oucomeçam a impactar o sono, o comportamento ou a aprendizagem, é importante buscar ajuda profissional. O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o que está dificultando essa separação e orientar a família de forma individualizada.

Você não precisa enfrentar esse momento sozinho. Em alguns casos, poucas sessões já são suficientes para reorganizar esse processo e devolver mais segurança à criança – e aos pais.

Psic. Dra. Cynthia Borges de Moura
CRP 08/5822

__________________________________________________________________________________________

SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

RODRIGUES, Nathalia Bentes. Ansiedade infantil: percepção de professores de crianças no início da vida escolar. 2025. 32 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia) – Universidade Federal do Amazonas, Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia de Parintins, Parintins, 2025.