Criança escutando a mãe falar

A criança não precisa olhar nos olhos para prestar atenção

“Olha para mim quando eu estou falando!”

Essa é uma frase muito comum no dia a dia de pais, professores e cuidadores. Culturalmente, aprendemos que olhar nos olhos é um sinal de respeito, interesse e atenção. No entanto, quando falamos sobre desenvolvimento infantil, essa associação nem sempre é verdadeira.

Muitas crianças conseguem ouvir, compreender e processar informações sem manter contato visual constante. Em alguns casos, exigir que a criança olhe nos olhos pode até dificultar sua capacidade de prestar atenção.

Atenção não é sinônimo de contato visual

Quando um adulto conversa com uma criança, é natural buscar sinais de que ela está acompanhando o que está sendo dito. O problema é usar apenas o contato visual como indicador.

Prestar atenção envolve processos cognitivos complexos, como ouvir, compreender, interpretar e armazenar informações. Nenhum desses processos depende exclusivamente de olhar para o rosto de quem está falando.

Você provavelmente já teve a experiência de escutar um podcast enquanto dirigia, cozinhava ou caminhava. Mesmo sem olhar para o locutor, foi capaz de compreender a mensagem. Com as crianças, algo semelhante pode acontecer.

Algumas crianças focam melhor enquanto olham para outro lugar

Durante uma conversa, é comum observar crianças olhando para um ponto qualquer do ambiente ou até mexendo nas mãos enquanto respondem perguntas. Isso não significa necessariamente desinteresse.

Na verdade, para algumas crianças, especialmente aquelas que precisam dedicar mais esforço ao processamento da linguagem, manter contato visual pode representar uma tarefa adicional. Elas acabam dividindo a atenção entre olhar para o interlocutor e compreender o conteúdo da conversa e se perdem.

Quando desviam o olhar, muitas vezes estão reduzindo estímulos visuais para conseguir se concentrar melhor no que está sendo dito.

Isso acontece só com crianças neurodivergentes?

Não, mas em crianças neurodivergentes, como muitas crianças autistas, essa questão pode ser ainda mais evidente.

O contato visual pode ser desconfortável, cansativo ou exigir um esforço consciente. Algumas descrevem a sensação como uma sobrecarga sensorial: ao mesmo tempo em que precisam interpretar palavras, expressões faciais, gestos e emoções, também precisam organizar suas próprias respostas.

Por isso, a ausência de contato visual não deve ser automaticamente interpretada como falta de atenção, desrespeito ou dificuldade de compreensão.

Como saber se a criança está realmente prestando atenção?

Em vez de observar apenas os olhos, vale a pena considerar outros sinais:

  • Responde adequadamente ao que foi dito.
  • Faz perguntas relacionadas ao assunto.
  • Segue instruções.
  • Demonstra compreensão do conteúdo.
  • Retoma informações discutidas anteriormente.
  • Participa da conversa de maneira coerente.

Esses comportamentos costumam ser indicadores muito mais confiáveis de atenção do que o simples contato visual.

Precisamos repensar algumas expectativas

Ensinar habilidades sociais é importante, e o contato visual pode fazer parte desse aprendizado em determinados contextos. No entanto, exigir que toda criança olhe nos olhos o tempo todo pode gerar ansiedade, desconforto e até prejudicar a comunicação.

Mais importante do que exigir contato visual é encontrar formas de a criança demonstrar que está acompanhando a conversa. Combinar respostas como “estou ouvindo”, “pode falar, mãe” ou outros sinais de atenção costuma ser muito mais útil do que insistir para que ela olhe nos olhos o tempo todo.

Quando ampliamos nosso olhar sobre o que significa prestar atenção, passamos a enxergar a criança de maneira mais acolhedora e respeitosa — e a comunicação se torna muito mais rica para todos os envolvidos.

Psic. Francielle Lopes

CRP 08/49524


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

 

Referências:

DOHERTY-SNEDDON, G.; PHELPS, F. G. Gaze aversion: a response tocognitiveor social difficulty? Memory&Cognition, New York, v. 33, n. 4, p. 727–733, 2005. DOI: 10.3758/BF03195338.

GLENBERG, Arthur M.; SCHROEDER, Jennifer L.; ROBERTSON, David A.Avertingthe gaze disengagestheenvironmentandfacilitatesremembering. Memory&Cognition, New York, v. 26, n. 4, p. 651–658, 1998.https://doi.org/10.3758/bf03211385

Leia mais
Adolescente triste

Adolescência e irritabilidade: quando observar com mais atenção?

Se você convive com um adolescente, provavelmente já ouviu alguém dizer: “Isso é coisa da idade”. Mudanças de humor, respostas atravessadas, impaciência e momentos de irritabilidade costumam fazer parte do imaginário popular sobre a adolescência.

De fato, a adolescência é um período marcado por intensas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais. Mas isso não significa que toda irritabilidade seja “normal”. O desafio está em diferenciar aquilo que faz parte do desenvolvimento esperado do que pode indicar sofrimento emocional.

Por que os adolescentes ficam mais irritados?

Durante a adolescência, o cérebro passa por importantes mudanças. Áreas relacionadas ao controle dos impulsos, planejamento e regulação emocional ainda estão em desenvolvimento, enquanto sistemas ligados às emoções e à busca por recompensas tornam-se mais ativos.

Além disso, o adolescente enfrenta diversos desafios simultaneamente: mudanças corporais, maior cobrança acadêmica, construção da identidade, ampliação das relações sociais e busca por autonomia.

Nesse contexto, é esperado que ocorram:

  • Oscilações de humor.
  • Maior sensibilidade a críticas.
  • Discussões ocasionais com pais e responsáveis.
  • Impaciência em algumas situações.
  • Reações emocionais mais intensas diante de frustrações.

Esses comportamentos, quando transitórios e proporcionais às situações vividas, costumam fazer parte do desenvolvimento típico.

Quando a irritabilidade deixa de ser apenas uma fase?

Alguns sinais que merecem atenção incluem:

  • Irritabilidade presente na maior parte dos dias.
  • Explosões de raiva desproporcionais aos acontecimentos.
  • Conflitos constantes em casa, na escola e com amigos.
  • Queda importante no rendimento escolar.
  • Isolamento social.
  • Alterações significativas no sono ou no apetite.
  • Perda de interesse por atividades antes prazerosas.
  • Comportamentos agressivos ou autodestrutivos.

A preocupação surge quando a irritabilidade passa a ser intensa, frequente e persistente, afetando diferentes áreas da vida do adolescente. Mais do que a intensidade de um episódio isolado, o que costuma diferenciar a normalidade da patologia é a frequência, a duração e o impacto desses comportamentos no funcionamento diário.

Irritabilidade pode ser sinal de transtornos emocionais?

Sim. Embora muitas pessoas associem transtornos emocionais apenas à tristeza ou à ansiedade, a irritabilidade pode ser uma das principais manifestações de sofrimento psicológico na adolescência.

Ela pode estar presente em condições como:

  • Transtornos de ansiedade.
  • Depressão.
  • Transtornos de humor.
  • Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
  • Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).
  • Transtornos do sono.
  • Situações de estresse intenso ou sobrecarga emocional.

Por isso, é importante olhar além da irritabilidade e tentar compreender o que pode estar acontecendo por trás dela.

Existem diferenças entre meninos e meninas?

Embora cada adolescente seja único, pesquisas mostram que meninos e meninas podem expressar sofrimento emocional de maneiras diferentes.

Nas meninas, é mais comum observar irritabilidade acompanhada de tristeza, ansiedade, autocobrança, retraimento social e sintomas internalizantes. Muitas vezes, o sofrimento aparece de forma mais silenciosa, por meio de preocupações excessivas, choro frequente ou sentimentos de inadequação.

Nos meninos, a irritabilidade pode se manifestar mais frequentemente por comportamentos externalizantes, como discussões, impulsividade, explosões de raiva, comportamentos desafiadores ou agressividade.

Isso não significa que meninas não possam ser agressivas ou que meninos também não possam apresentar tristeza e ansiedade. Essas diferenças representam tendências gerais e não regras. O mais importante é compreender que o sofrimento emocional pode assumir formas variadas, independentemente do gênero.

Nem tudo é adolescência

Um dos maiores riscos é atribuir qualquer mudança de comportamento à famosa “fase da adolescência”. Embora oscilações de humor e momentos de irritabilidade façam parte do desenvolvimento típico, o sofrimento emocional também pode surgir nesse período e merece atenção quando é intenso, persistente e traz prejuízos para a vida do adolescente.

A adolescência pode ser intensa, mas não precisa ser vivida em sofrimento constante. Quando pais, educadores e profissionais conseguem olhar além do comportamento e compreender o que ele está comunicando, torna-se mais fácil oferecer o apoio necessário no momento certo.

Psic. Dra. Cynthia Borges de Moura
CRP 08/5822


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

STEINBERG, Laurence. Cognitive and affective development in adolescence. Trends in Cognitive Sciences, Amsterdam, v. 9, n. 2, p. 69–74, fev. 2005. DOI: 10.1016/j.tics.2004.12.005.

CASEY, B. J.; JONES, Rebecca M.; HARE, Todd A. The adolescent brain. Annals of the New York Academy of Sciences, New York, v. 1124, n. 1, p. 111–126, 2008. DOI: 10.1196/annals.1440.010.

Leia mais

Explosões em Casa | Como ensinar respeito sem perder o controle?

Quando a criança tem uma explosão em casa, o que mais costuma preocupar os pais não é apenas o comportamento em si… é o medo de perder o controle junto com ela. E isso é mais comum do que parece.

Momentos de explosão também mobilizam o adulto, porque despertam irritação, cansaço e, muitas vezes, culpa… além daquela sensação persistente de “eu podia ter lidado melhor com isso” depois que tudo passa.

A forma como o adulto reage nessas situações ensina muito sobre como lidar com conflitos. Quando a resposta vem no impulso, no grito ou na tentativa de controle rígido, a criança aprende mais sobre intensidade emocional do que sobre respeito ou regulação. E quanto mais o adulto tenta resolver no meio da tensão, mais a situação se intensifica… porque nem a criança nem o adulto estão realmente disponíveis para se organizar e pensar em alternativas.

Por isso, é importante saber esperar. Permitir que a intensidade diminua não é “deixar passar”, mas criar as condições necessárias para que a aprendizagem realmente aconteça. Já ouviu nossos avós dizerem “espera a poeira baixar” ou “deixa o barro secar”?

Eles estavam certos. Se você tentar limpar uma botina suja de barro, a sujeira se espalha. Mas, se esperar o barro secar, basta sacudir a botinae sobra bem menos para limpar. Fica muito mais fácil.

Traduzindo isso para a explosão do seu filho: diga “quando você se acalmar, nós conversamos”. Sem humilhação, sem ameaça… e, principalmente, sem perder de vista que a criança ainda está aprendendo a lidar com o que sente.

A criança aprende a se regular a partir da regulação do adulto. Aprende, aos poucos, que sentir raiva, frustração ou irritação faz parte, mas que existem formas possíveis, e mais saudáveis, de expressar tudo isso. Por isso, depois que ela se acalmar, ensine o que pode fazer da próxima vez em que se frustrar.

E, se a frustração tiver sido causada por um limite que você estabeleceu, não recue. Explique que o limite continua valendo, que gritar não fará com que ela consiga o que deseja e reforce o prazo ou os critérios combinados para que isso aconteça. Mas, às vezes, o “não” é não — e não há nada a ser feito.

Educar, no fim das contas, também é ensinar que nem tudo sai como queremos — e está tudo bem. É mostrar, na prática, como lidar com emoções intensas sem desrespeitar o outro, aceitando nossas limitações ou enfrentando-as com habilidades mais pró-sociais.

Psicóloga Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

SOUZA, Ana Beatriz Mota; MENDES, Deise Maria Leal Fernandes; KAPPLER, Stella Rabello. Estratégias de regulação emocional maternas e de crianças: revisão da literatura. Gerais, Rev. Interinst. Psicol.,  Belo Horizonte ,  v. 14, n. spe, p. 1-22,  dez.  2021 .

MACEDO, L. S. R. DE .; SPERB, T. M.. Regulação de emoções na pré-adolescência e influência da conversação familiar. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 29, n. 2, p. 133–140, abr. 2013.

Leia mais

Por que a criança parece “piorar” no início da terapia?

“Doutora… parece que piorou depois que começou a terapia.”

Essa é uma das frases que mais escuto nas primeiras semanas de acompanhamento infantil. E sempre que ela aparece, vem acompanhada de preocupação, dúvida e, às vezes, até culpa. A sensação dos pais é de que algo deu errado. Afinal, se a criança começou a terapia para melhorar, por que agora está mais irritada, mais sensível ou mais “respondona”?

O que muitos não sabem é que esse movimento pode, sim, fazer parte do processo terapêutico — e não significa retrocesso.

Quando a criança começa a se autorizar a sentir

Quando a terapia começa, a criança encontra um espaço seguro para falar, sentir e experimentar novas formas de se posicionar. Muitas vezes, ela passa anos guardando emoções, engolindo frustrações, tentando se adaptar ou simplesmente não encontrando palavras para o que sente. Na terapia, ela descobre que pode se expressar sem ser julgada, que pode dizer “não gostei”, “fiquei bravo”, “me senti injustiçado”. Esse fortalecimento da autoconfiança, da expressividade e da assertividade pode, no início, dar a impressão de que ela está mais desafiadora.

Mas é importante entender: não é que a criança ficou pior. É que agora ela está mais autorizada a existir emocionalmente. Aquilo que estava represado, sem espaço e sem escuta, começa a aparecer. E, às vezes, aparece como um turbilhão mesmo. Emoções que antes ficavam reprimidas podem surgir com intensidade. Limites passam a ser testados. Questionamentos aparecem. Não porque a terapia desorganizou a criança, mas porque está ajudando a reorganizar por dentro.

A “bagunça” faz parte da reorganização

Eu costumo comparar esse momento a uma faxina. Quando decidimos arrumar um ambiente muito bagunçado, precisamos primeiro tirar as coisas do lugar. Abrimos armários, espalhamos objetos, mexemos em tudo. Por um momento, parece que está ainda mais desorganizado do que antes. Mas essa “bagunça temporária” é parte do processo de limpeza e reorganização. Sem esse movimento inicial, nada realmente muda.

Com a criança acontece algo semelhante. O início da terapia pode trazer à tona conteúdos que estavam guardados, sentimentos que não tinham espaço e comportamentos que agora estão sendo experimentados de forma mais consciente. É uma fase de ajuste interno. E todo ajuste exige tempo.

O papel da família nessa fase

Por isso, se você perceber esse tipo de mudança, não enfrente isso sozinho. Converse com o terapeuta do seu filho. Pergunte como manejar determinadas situações em casa, peça orientações práticas e alinhe estratégias. A parceria entre família e terapeuta é fundamental nesse momento. Com manejo adequado, constância e coerência, essa fase tende a se estabilizar.

E, aos poucos, aquilo que parecia desorganização começa a se transformar em algo muito mais estruturado: uma criança mais consciente de si, mais capaz de nomear o que sente e mais segura para se posicionar de maneira saudável.

O equilíbrio que você espera não está sendo construído. Pode confiar.

Psic. Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112

__________________________________________________________________________________________

SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

ALMEIDA, Maria Emanuelly Figueiredo. Regulação emocional infantil: percepção dos pais sobre a criança em psicoterapia. 2022. 48 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Psicologia) – Centro Universitário de Patos, Patos, PB, 2022.

Leia mais