Explosões em Casa | Como ensinar respeito sem perder o controle?

Quando a criança tem uma explosão em casa, o que mais costuma preocupar os pais não é apenas o comportamento em si… é o medo de perder o controle junto com ela. E isso é mais comum do que parece.

Momentos de explosão também mobilizam o adulto, porque despertam irritação, cansaço e, muitas vezes, culpa… além daquela sensação persistente de “eu podia ter lidado melhor com isso” depois que tudo passa.

A forma como o adulto reage nessas situações ensina muito sobre como lidar com conflitos. Quando a resposta vem no impulso, no grito ou na tentativa de controle rígido, a criança aprende mais sobre intensidade emocional do que sobre respeito ou regulação. E quanto mais o adulto tenta resolver no meio da tensão, mais a situação se intensifica… porque nem a criança nem o adulto estão realmente disponíveis para se organizar e pensar em alternativas.

Por isso, é importante saber esperar. Permitir que a intensidade diminua não é “deixar passar”, mas criar as condições necessárias para que a aprendizagem realmente aconteça. Já ouviu nossos avós dizerem “espera a poeira baixar” ou “deixa o barro secar”?

Eles estavam certos. Se você tentar limpar uma botina suja de barro, a sujeira se espalha. Mas, se esperar o barro secar, basta sacudir a botinae sobra bem menos para limpar. Fica muito mais fácil.

Traduzindo isso para a explosão do seu filho: diga “quando você se acalmar, nós conversamos”. Sem humilhação, sem ameaça… e, principalmente, sem perder de vista que a criança ainda está aprendendo a lidar com o que sente.

A criança aprende a se regular a partir da regulação do adulto. Aprende, aos poucos, que sentir raiva, frustração ou irritação faz parte, mas que existem formas possíveis, e mais saudáveis, de expressar tudo isso. Por isso, depois que ela se acalmar, ensine o que pode fazer da próxima vez em que se frustrar.

E, se a frustração tiver sido causada por um limite que você estabeleceu, não recue. Explique que o limite continua valendo, que gritar não fará com que ela consiga o que deseja e reforce o prazo ou os critérios combinados para que isso aconteça. Mas, às vezes, o “não” é não — e não há nada a ser feito.

Educar, no fim das contas, também é ensinar que nem tudo sai como queremos — e está tudo bem. É mostrar, na prática, como lidar com emoções intensas sem desrespeitar o outro, aceitando nossas limitações ou enfrentando-as com habilidades mais pró-sociais.

Psicóloga Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112


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Referências:

SOUZA, Ana Beatriz Mota; MENDES, Deise Maria Leal Fernandes; KAPPLER, Stella Rabello. Estratégias de regulação emocional maternas e de crianças: revisão da literatura. Gerais, Rev. Interinst. Psicol.,  Belo Horizonte ,  v. 14, n. spe, p. 1-22,  dez.  2021 .

MACEDO, L. S. R. DE .; SPERB, T. M.. Regulação de emoções na pré-adolescência e influência da conversação familiar. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 29, n. 2, p. 133–140, abr. 2013.

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Por que a criança parece “piorar” no início da terapia?

“Doutora… parece que piorou depois que começou a terapia.”

Essa é uma das frases que mais escuto nas primeiras semanas de acompanhamento infantil. E sempre que ela aparece, vem acompanhada de preocupação, dúvida e, às vezes, até culpa. A sensação dos pais é de que algo deu errado. Afinal, se a criança começou a terapia para melhorar, por que agora está mais irritada, mais sensível ou mais “respondona”?

O que muitos não sabem é que esse movimento pode, sim, fazer parte do processo terapêutico — e não significa retrocesso.

Quando a criança começa a se autorizar a sentir

Quando a terapia começa, a criança encontra um espaço seguro para falar, sentir e experimentar novas formas de se posicionar. Muitas vezes, ela passa anos guardando emoções, engolindo frustrações, tentando se adaptar ou simplesmente não encontrando palavras para o que sente. Na terapia, ela descobre que pode se expressar sem ser julgada, que pode dizer “não gostei”, “fiquei bravo”, “me senti injustiçado”. Esse fortalecimento da autoconfiança, da expressividade e da assertividade pode, no início, dar a impressão de que ela está mais desafiadora.

Mas é importante entender: não é que a criança ficou pior. É que agora ela está mais autorizada a existir emocionalmente. Aquilo que estava represado, sem espaço e sem escuta, começa a aparecer. E, às vezes, aparece como um turbilhão mesmo. Emoções que antes ficavam reprimidas podem surgir com intensidade. Limites passam a ser testados. Questionamentos aparecem. Não porque a terapia desorganizou a criança, mas porque está ajudando a reorganizar por dentro.

A “bagunça” faz parte da reorganização

Eu costumo comparar esse momento a uma faxina. Quando decidimos arrumar um ambiente muito bagunçado, precisamos primeiro tirar as coisas do lugar. Abrimos armários, espalhamos objetos, mexemos em tudo. Por um momento, parece que está ainda mais desorganizado do que antes. Mas essa “bagunça temporária” é parte do processo de limpeza e reorganização. Sem esse movimento inicial, nada realmente muda.

Com a criança acontece algo semelhante. O início da terapia pode trazer à tona conteúdos que estavam guardados, sentimentos que não tinham espaço e comportamentos que agora estão sendo experimentados de forma mais consciente. É uma fase de ajuste interno. E todo ajuste exige tempo.

O papel da família nessa fase

Por isso, se você perceber esse tipo de mudança, não enfrente isso sozinho. Converse com o terapeuta do seu filho. Pergunte como manejar determinadas situações em casa, peça orientações práticas e alinhe estratégias. A parceria entre família e terapeuta é fundamental nesse momento. Com manejo adequado, constância e coerência, essa fase tende a se estabilizar.

E, aos poucos, aquilo que parecia desorganização começa a se transformar em algo muito mais estruturado: uma criança mais consciente de si, mais capaz de nomear o que sente e mais segura para se posicionar de maneira saudável.

O equilíbrio que você espera não está sendo construído. Pode confiar.

Psic. Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

ALMEIDA, Maria Emanuelly Figueiredo. Regulação emocional infantil: percepção dos pais sobre a criança em psicoterapia. 2022. 48 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Psicologia) – Centro Universitário de Patos, Patos, PB, 2022.

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