Criança organizando tudo perfeitamente enquanto outras brincam ao fundo

Nem todo sofrimento emocional infantil aparece como sofrimento

Nem todo sofrimento emocional infantil aparece como sofrimento

Quando pensamos em uma criança que está passando por dificuldades emocionais, é comum imaginarmos alguém triste, chorando, irritado, agressivo ou com mudanças evidentes de comportamento. Esses sinais realmente podem indicar que algo não vai bem. Mas nem sempre o sofrimento infantil se manifesta dessa maneira.

Às vezes, acontece justamente o contrário: a criança parece estar muito bem. É obediente, organizada, independente, não dá trabalho e parece lidar com tudo com muita facilidade.

Mas será que está tudo bem?

Há muitos anos, uma menina de 6 anos chegou à terapia acompanhada pela mãe, que estava um pouco contrariada. Ela não acreditava que a filha precisasse de atendimento, mas a escola havia insistido.

A menina era uma criança extremamente “certinha”.

Não gostava de se sujar, organizava cuidadosamente seu lanche, não derramava o suco e não esfarelava as bolachas. Quando alguma coisa saía do lugar ou não acontecia como ela esperava, seus olhos se enchiam de lágrimas.

A professora percebeu que aquele comportamento merecia atenção.

Não porque a menina fosse desobediente ou apresentasse algum problema de comportamento, mas justamente porque havia uma rigidez e uma preocupação excessivas para a idade.

Esse caso ilustra algo importante: nem todo sofrimento emocional infantil aparece como tristeza ou mau comportamento. Às vezes, ele aparece como uma adaptação excessiva.

Quais sinais podem merecer atenção?

É importante lembrar que nenhum desses comportamentos, isoladamente, significa que uma criança esteja sofrendo emocionalmente.

Crianças têm diferentes temperamentos e fases de desenvolvimento. O que merece atenção é uma mudança significativa em relação ao funcionamento habitual, especialmente quando o comportamento se torna muito rígido, intenso ou começa a limitar a vida da criança.

  1. A criança para de reclamar

Uma criança que antes dizia o que queria, protestava, pedia ajuda e demonstrava quando algo a incomodava pode começar a aceitar tudo passivamente.

À primeira vista, isso pode parecer maturidade ou facilidade de lidar com as situações. Mas, dependendo do contexto, também pode indicar que a criança está deixando de expressar suas necessidades e sentimentos.

  1. Fica independente demais

Ela passa a não pedir ajuda, não procura os adultos e parece não precisar de ninguém.A independência é uma conquista importante do desenvolvimento. A questão é observar quando essa independência aparece de maneira muito intensa ou representa uma mudança brusca no comportamento da criança.

  1. Precisa controlar tudo

Algumas crianças passam a ter muita dificuldade quando algo sai do planejado. Querem saber antecipadamente o que vai acontecer, precisam que as coisas sejam feitas de determinada maneira e ficam muito incomodadas diante de mudanças.Em alguns casos, a tentativa de controlar o ambiente pode estar relacionada à necessidade de tornar as situações mais previsíveis e, portanto, mais fáceis de suportar.

  1. Fica excessivamente “certinha”

É a criança que parece estar sempre preocupada em fazer tudo certo, agradar os adultos, não errar e não incomodar.Ser responsável e cuidadosa não é um problema. O sinal de atenção aparece quando o medo de errar, desagradar ou sair do esperado começa a ocupar um espaço excessivo na vida da criança.

  1. Perde a espontaneidade

Esse talvez seja um dos sinais mais importantes e, muitas vezes, menos percebidos.A criança brinca menos, inventa menos, demonstra menos curiosidade, procura menos os adultos ou deixa de se entusiasmar com coisas que antes gostava.

Não necessariamente apareceu um comportamento-problema. Às vezes, simplesmente alguma coisa deixou de acontecer.E observar o que diminuiu no repertório da criança pode ser tão importante quanto observar aquilo que surgiu.

  1. Assume responsabilidades que não são dela

Algumas crianças começam a tentar evitar conflitos, cuidar do humor dos adultos, preocupar-se excessivamente com alguém da família ou agir como se precisassem “manter tudo bem”.Isso pode ser interpretado como maturidade, responsabilidade ou sensibilidade. Mas uma criança não deveria precisar assumir o papel de mediadora ou sustentação emocional da família.

 

Olhar para o que mudou

Quando pensamos em sofrimento emocional infantil, precisamos olhar não apenas para aquilo que a criança começou a fazer, mas também para aquilo que ela deixou de fazer.

Uma criança pode não estar chorando, não estar fazendo birra e não estar dando trabalho. Pode, inclusive, estar sendo elogiada por seu comportamento.E ainda assim alguma coisa pode estar acontecendo.Por isso, mais importante do que perguntar apenas “qual comportamento está errado?” é perguntar:O que mudou nessa criança?

Às vezes, o sinal não é uma criança difícil. É uma criança adaptada demais.

Se você percebe mudanças no comportamento do seu filho e não sabe se elas merecem atenção, nós podemos ajudar. Uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está por trás dessas mudanças, orientar os pais e identificar quando é importante intervir.

 

Dra. Cynthia Moura

CRP 08/5822


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

 

Referências:

FAVA, D. C.; ANDRETTA, I.; MARIN, A. H. Problemas emocionais e de comportamento em crianças: fatores associados e preditivos. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, Rio de Janeiro, 2023. DOI: 10.5935/1808-5687.20230035.

 

GAUY, F. V.; GUIMARÃES, S. S. Triagem em saúde mental infantil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 22, n. 1, p. 005–016, 2006.

DOI: 10.1590/S0102-37722006000100002.

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Criança escutando a mãe falar

A criança não precisa olhar nos olhos para prestar atenção

“Olha para mim quando eu estou falando!”

Essa é uma frase muito comum no dia a dia de pais, professores e cuidadores. Culturalmente, aprendemos que olhar nos olhos é um sinal de respeito, interesse e atenção. No entanto, quando falamos sobre desenvolvimento infantil, essa associação nem sempre é verdadeira.

Muitas crianças conseguem ouvir, compreender e processar informações sem manter contato visual constante. Em alguns casos, exigir que a criança olhe nos olhos pode até dificultar sua capacidade de prestar atenção.

Atenção não é sinônimo de contato visual

Quando um adulto conversa com uma criança, é natural buscar sinais de que ela está acompanhando o que está sendo dito. O problema é usar apenas o contato visual como indicador.

Prestar atenção envolve processos cognitivos complexos, como ouvir, compreender, interpretar e armazenar informações. Nenhum desses processos depende exclusivamente de olhar para o rosto de quem está falando.

Você provavelmente já teve a experiência de escutar um podcast enquanto dirigia, cozinhava ou caminhava. Mesmo sem olhar para o locutor, foi capaz de compreender a mensagem. Com as crianças, algo semelhante pode acontecer.

Algumas crianças focam melhor enquanto olham para outro lugar

Durante uma conversa, é comum observar crianças olhando para um ponto qualquer do ambiente ou até mexendo nas mãos enquanto respondem perguntas. Isso não significa necessariamente desinteresse.

Na verdade, para algumas crianças, especialmente aquelas que precisam dedicar mais esforço ao processamento da linguagem, manter contato visual pode representar uma tarefa adicional. Elas acabam dividindo a atenção entre olhar para o interlocutor e compreender o conteúdo da conversa e se perdem.

Quando desviam o olhar, muitas vezes estão reduzindo estímulos visuais para conseguir se concentrar melhor no que está sendo dito.

Isso acontece só com crianças neurodivergentes?

Não, mas em crianças neurodivergentes, como muitas crianças autistas, essa questão pode ser ainda mais evidente.

O contato visual pode ser desconfortável, cansativo ou exigir um esforço consciente. Algumas descrevem a sensação como uma sobrecarga sensorial: ao mesmo tempo em que precisam interpretar palavras, expressões faciais, gestos e emoções, também precisam organizar suas próprias respostas.

Por isso, a ausência de contato visual não deve ser automaticamente interpretada como falta de atenção, desrespeito ou dificuldade de compreensão.

Como saber se a criança está realmente prestando atenção?

Em vez de observar apenas os olhos, vale a pena considerar outros sinais:

  • Responde adequadamente ao que foi dito.
  • Faz perguntas relacionadas ao assunto.
  • Segue instruções.
  • Demonstra compreensão do conteúdo.
  • Retoma informações discutidas anteriormente.
  • Participa da conversa de maneira coerente.

Esses comportamentos costumam ser indicadores muito mais confiáveis de atenção do que o simples contato visual.

Precisamos repensar algumas expectativas

Ensinar habilidades sociais é importante, e o contato visual pode fazer parte desse aprendizado em determinados contextos. No entanto, exigir que toda criança olhe nos olhos o tempo todo pode gerar ansiedade, desconforto e até prejudicar a comunicação.

Mais importante do que exigir contato visual é encontrar formas de a criança demonstrar que está acompanhando a conversa. Combinar respostas como “estou ouvindo”, “pode falar, mãe” ou outros sinais de atenção costuma ser muito mais útil do que insistir para que ela olhe nos olhos o tempo todo.

Quando ampliamos nosso olhar sobre o que significa prestar atenção, passamos a enxergar a criança de maneira mais acolhedora e respeitosa — e a comunicação se torna muito mais rica para todos os envolvidos.

Psic. Francielle Lopes

CRP 08/49524


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

 

Referências:

DOHERTY-SNEDDON, G.; PHELPS, F. G. Gaze aversion: a response tocognitiveor social difficulty? Memory&Cognition, New York, v. 33, n. 4, p. 727–733, 2005. DOI: 10.3758/BF03195338.

GLENBERG, Arthur M.; SCHROEDER, Jennifer L.; ROBERTSON, David A.Avertingthe gaze disengagestheenvironmentandfacilitatesremembering. Memory&Cognition, New York, v. 26, n. 4, p. 651–658, 1998.https://doi.org/10.3758/bf03211385

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Adolescente triste

Adolescência e irritabilidade: quando observar com mais atenção?

Se você convive com um adolescente, provavelmente já ouviu alguém dizer: “Isso é coisa da idade”. Mudanças de humor, respostas atravessadas, impaciência e momentos de irritabilidade costumam fazer parte do imaginário popular sobre a adolescência.

De fato, a adolescência é um período marcado por intensas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais. Mas isso não significa que toda irritabilidade seja “normal”. O desafio está em diferenciar aquilo que faz parte do desenvolvimento esperado do que pode indicar sofrimento emocional.

Por que os adolescentes ficam mais irritados?

Durante a adolescência, o cérebro passa por importantes mudanças. Áreas relacionadas ao controle dos impulsos, planejamento e regulação emocional ainda estão em desenvolvimento, enquanto sistemas ligados às emoções e à busca por recompensas tornam-se mais ativos.

Além disso, o adolescente enfrenta diversos desafios simultaneamente: mudanças corporais, maior cobrança acadêmica, construção da identidade, ampliação das relações sociais e busca por autonomia.

Nesse contexto, é esperado que ocorram:

  • Oscilações de humor.
  • Maior sensibilidade a críticas.
  • Discussões ocasionais com pais e responsáveis.
  • Impaciência em algumas situações.
  • Reações emocionais mais intensas diante de frustrações.

Esses comportamentos, quando transitórios e proporcionais às situações vividas, costumam fazer parte do desenvolvimento típico.

Quando a irritabilidade deixa de ser apenas uma fase?

Alguns sinais que merecem atenção incluem:

  • Irritabilidade presente na maior parte dos dias.
  • Explosões de raiva desproporcionais aos acontecimentos.
  • Conflitos constantes em casa, na escola e com amigos.
  • Queda importante no rendimento escolar.
  • Isolamento social.
  • Alterações significativas no sono ou no apetite.
  • Perda de interesse por atividades antes prazerosas.
  • Comportamentos agressivos ou autodestrutivos.

A preocupação surge quando a irritabilidade passa a ser intensa, frequente e persistente, afetando diferentes áreas da vida do adolescente. Mais do que a intensidade de um episódio isolado, o que costuma diferenciar a normalidade da patologia é a frequência, a duração e o impacto desses comportamentos no funcionamento diário.

Irritabilidade pode ser sinal de transtornos emocionais?

Sim. Embora muitas pessoas associem transtornos emocionais apenas à tristeza ou à ansiedade, a irritabilidade pode ser uma das principais manifestações de sofrimento psicológico na adolescência.

Ela pode estar presente em condições como:

  • Transtornos de ansiedade.
  • Depressão.
  • Transtornos de humor.
  • Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
  • Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).
  • Transtornos do sono.
  • Situações de estresse intenso ou sobrecarga emocional.

Por isso, é importante olhar além da irritabilidade e tentar compreender o que pode estar acontecendo por trás dela.

Existem diferenças entre meninos e meninas?

Embora cada adolescente seja único, pesquisas mostram que meninos e meninas podem expressar sofrimento emocional de maneiras diferentes.

Nas meninas, é mais comum observar irritabilidade acompanhada de tristeza, ansiedade, autocobrança, retraimento social e sintomas internalizantes. Muitas vezes, o sofrimento aparece de forma mais silenciosa, por meio de preocupações excessivas, choro frequente ou sentimentos de inadequação.

Nos meninos, a irritabilidade pode se manifestar mais frequentemente por comportamentos externalizantes, como discussões, impulsividade, explosões de raiva, comportamentos desafiadores ou agressividade.

Isso não significa que meninas não possam ser agressivas ou que meninos também não possam apresentar tristeza e ansiedade. Essas diferenças representam tendências gerais e não regras. O mais importante é compreender que o sofrimento emocional pode assumir formas variadas, independentemente do gênero.

Nem tudo é adolescência

Um dos maiores riscos é atribuir qualquer mudança de comportamento à famosa “fase da adolescência”. Embora oscilações de humor e momentos de irritabilidade façam parte do desenvolvimento típico, o sofrimento emocional também pode surgir nesse período e merece atenção quando é intenso, persistente e traz prejuízos para a vida do adolescente.

A adolescência pode ser intensa, mas não precisa ser vivida em sofrimento constante. Quando pais, educadores e profissionais conseguem olhar além do comportamento e compreender o que ele está comunicando, torna-se mais fácil oferecer o apoio necessário no momento certo.

Psic. Dra. Cynthia Borges de Moura
CRP 08/5822


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

STEINBERG, Laurence. Cognitive and affective development in adolescence. Trends in Cognitive Sciences, Amsterdam, v. 9, n. 2, p. 69–74, fev. 2005. DOI: 10.1016/j.tics.2004.12.005.

CASEY, B. J.; JONES, Rebecca M.; HARE, Todd A. The adolescent brain. Annals of the New York Academy of Sciences, New York, v. 1124, n. 1, p. 111–126, 2008. DOI: 10.1196/annals.1440.010.

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Explosões em Casa | Como ensinar respeito sem perder o controle?

Quando a criança tem uma explosão em casa, o que mais costuma preocupar os pais não é apenas o comportamento em si… é o medo de perder o controle junto com ela. E isso é mais comum do que parece.

Momentos de explosão também mobilizam o adulto, porque despertam irritação, cansaço e, muitas vezes, culpa… além daquela sensação persistente de “eu podia ter lidado melhor com isso” depois que tudo passa.

A forma como o adulto reage nessas situações ensina muito sobre como lidar com conflitos. Quando a resposta vem no impulso, no grito ou na tentativa de controle rígido, a criança aprende mais sobre intensidade emocional do que sobre respeito ou regulação. E quanto mais o adulto tenta resolver no meio da tensão, mais a situação se intensifica… porque nem a criança nem o adulto estão realmente disponíveis para se organizar e pensar em alternativas.

Por isso, é importante saber esperar. Permitir que a intensidade diminua não é “deixar passar”, mas criar as condições necessárias para que a aprendizagem realmente aconteça. Já ouviu nossos avós dizerem “espera a poeira baixar” ou “deixa o barro secar”?

Eles estavam certos. Se você tentar limpar uma botina suja de barro, a sujeira se espalha. Mas, se esperar o barro secar, basta sacudir a botinae sobra bem menos para limpar. Fica muito mais fácil.

Traduzindo isso para a explosão do seu filho: diga “quando você se acalmar, nós conversamos”. Sem humilhação, sem ameaça… e, principalmente, sem perder de vista que a criança ainda está aprendendo a lidar com o que sente.

A criança aprende a se regular a partir da regulação do adulto. Aprende, aos poucos, que sentir raiva, frustração ou irritação faz parte, mas que existem formas possíveis, e mais saudáveis, de expressar tudo isso. Por isso, depois que ela se acalmar, ensine o que pode fazer da próxima vez em que se frustrar.

E, se a frustração tiver sido causada por um limite que você estabeleceu, não recue. Explique que o limite continua valendo, que gritar não fará com que ela consiga o que deseja e reforce o prazo ou os critérios combinados para que isso aconteça. Mas, às vezes, o “não” é não — e não há nada a ser feito.

Educar, no fim das contas, também é ensinar que nem tudo sai como queremos — e está tudo bem. É mostrar, na prática, como lidar com emoções intensas sem desrespeitar o outro, aceitando nossas limitações ou enfrentando-as com habilidades mais pró-sociais.

Psicóloga Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

SOUZA, Ana Beatriz Mota; MENDES, Deise Maria Leal Fernandes; KAPPLER, Stella Rabello. Estratégias de regulação emocional maternas e de crianças: revisão da literatura. Gerais, Rev. Interinst. Psicol.,  Belo Horizonte ,  v. 14, n. spe, p. 1-22,  dez.  2021 .

MACEDO, L. S. R. DE .; SPERB, T. M.. Regulação de emoções na pré-adolescência e influência da conversação familiar. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 29, n. 2, p. 133–140, abr. 2013.

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Por que a criança parece “piorar” no início da terapia?

“Doutora… parece que piorou depois que começou a terapia.”

Essa é uma das frases que mais escuto nas primeiras semanas de acompanhamento infantil. E sempre que ela aparece, vem acompanhada de preocupação, dúvida e, às vezes, até culpa. A sensação dos pais é de que algo deu errado. Afinal, se a criança começou a terapia para melhorar, por que agora está mais irritada, mais sensível ou mais “respondona”?

O que muitos não sabem é que esse movimento pode, sim, fazer parte do processo terapêutico — e não significa retrocesso.

Quando a criança começa a se autorizar a sentir

Quando a terapia começa, a criança encontra um espaço seguro para falar, sentir e experimentar novas formas de se posicionar. Muitas vezes, ela passa anos guardando emoções, engolindo frustrações, tentando se adaptar ou simplesmente não encontrando palavras para o que sente. Na terapia, ela descobre que pode se expressar sem ser julgada, que pode dizer “não gostei”, “fiquei bravo”, “me senti injustiçado”. Esse fortalecimento da autoconfiança, da expressividade e da assertividade pode, no início, dar a impressão de que ela está mais desafiadora.

Mas é importante entender: não é que a criança ficou pior. É que agora ela está mais autorizada a existir emocionalmente. Aquilo que estava represado, sem espaço e sem escuta, começa a aparecer. E, às vezes, aparece como um turbilhão mesmo. Emoções que antes ficavam reprimidas podem surgir com intensidade. Limites passam a ser testados. Questionamentos aparecem. Não porque a terapia desorganizou a criança, mas porque está ajudando a reorganizar por dentro.

A “bagunça” faz parte da reorganização

Eu costumo comparar esse momento a uma faxina. Quando decidimos arrumar um ambiente muito bagunçado, precisamos primeiro tirar as coisas do lugar. Abrimos armários, espalhamos objetos, mexemos em tudo. Por um momento, parece que está ainda mais desorganizado do que antes. Mas essa “bagunça temporária” é parte do processo de limpeza e reorganização. Sem esse movimento inicial, nada realmente muda.

Com a criança acontece algo semelhante. O início da terapia pode trazer à tona conteúdos que estavam guardados, sentimentos que não tinham espaço e comportamentos que agora estão sendo experimentados de forma mais consciente. É uma fase de ajuste interno. E todo ajuste exige tempo.

O papel da família nessa fase

Por isso, se você perceber esse tipo de mudança, não enfrente isso sozinho. Converse com o terapeuta do seu filho. Pergunte como manejar determinadas situações em casa, peça orientações práticas e alinhe estratégias. A parceria entre família e terapeuta é fundamental nesse momento. Com manejo adequado, constância e coerência, essa fase tende a se estabilizar.

E, aos poucos, aquilo que parecia desorganização começa a se transformar em algo muito mais estruturado: uma criança mais consciente de si, mais capaz de nomear o que sente e mais segura para se posicionar de maneira saudável.

O equilíbrio que você espera não está sendo construído. Pode confiar.

Psic. Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

ALMEIDA, Maria Emanuelly Figueiredo. Regulação emocional infantil: percepção dos pais sobre a criança em psicoterapia. 2022. 48 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Psicologia) – Centro Universitário de Patos, Patos, PB, 2022.

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Se machuca, não é brincadeira!

“Ah, foi só uma brincadeira.” Quantas vezes essa frase aparece depois que uma criança se sente constrangida, envergonhada ou magoada com um sarrinho adulto? Mas existe uma verdade simples e inegociável: se machuca, não é brincadeira.

A criança não interpreta como o adulto

No desenvolvimento infantil, há um ponto fundamental: a criança não processa ironia, sarcasmo ou “zoação leve” da mesma forma que um adulto. O cérebro dela ainda está em construção — especialmente as áreas responsáveis por interpretação social complexa, flexibilidade cognitiva e regulação emocional.

Quando uma criança sente medo, vergonha ou exposição, o cérebro não registra aquilo como “humor”, mas sim como ameaça, da qual precisa se defender.

O que acontece no corpo da criança?

Diante de uma situação percebida como humilhante ou assustadora, o sistema nervoso entra em estado de alerta. O corpo libera hormônios do estresse, a atenção fica voltada para se proteger e não para refletir. Nesse estado, não há espaço para: aprender, elaborar emoções, desenvolver repertório social ou construir confiança. Há apenas autodefesa.

Algumas crianças reagem atacando. Outras se retraem. Outras riem sem graça para tentar pertencer. E repetidas experiências assim podem ensinar algo perigoso: “minhas relações não são seguras.”

“Mas eu estava só brincando…”

Muitos adultos usam a provocação como forma de interação. Às vezes foi assim que aprenderam a demonstrar afeto. Às vezes não percebem o impacto. O problema não é a intenção. É o efeito.

Se a criança diz que não gostou, se ela abaixa o olhar, se encolhe, se silencia ou reage com irritação — ali existe um sinal que não deve ser ultrapassado.

Respeitar esse pedido de “pare” é importante para ensinar limite saudável, que é possível ajustar a interação.

E, quando erramos (porque todos erramos), é possível fazer algo poderoso:
parar e pedir desculpas. Isso ensina muito mais do que qualquer discurso.

Segurança emocional é base para autorregulação

Educar não é endurecer para fortalecer. Educar é construir segurança.

A autorregulação nasce da previsibilidade e do vínculo seguro. A criança aprende a regular suas emoções quando vive relações em que é respeitada, ouvida, levada a sério. E uma criança em modo de autodefesa não está disponível para crescer — está tentando sobreviver emocionalmente.

A pergunta que transforma

Antes de continuar uma brincadeira, vale perguntar: “Isso está sendo divertido para nós dois?”

Se não está sendo para a criança, não é brincadeira compartilhada — é imposição. E a interação que realmente educa não humilha, não expõe, não diminui. Ela constrói.

Psic. Keila Franco

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

FISCHER, Marcela; FORNECK, Kári Lúcia. O ensino da compreensão da ironia na educação infantil: uma abordagem pragmática. Revista de Letras, Curitiba, v. 25, n. 46, p. 122–143, jan./jun. 2023.

SEIXAS, Netília Silva dos Anjos. A linguagem nas crianças além do sentido literal. Movendo Ideias, Belém, v. 16, n. 2, ago./dez. 2011.

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O brincar sozinho na infância em tempos de excesso de telas

O brincar é uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil, pois possibilita à criança explorar o mundo, expressar sentimentos e construir conhecimentos a partir de suas próprias experiências. Estudos sobre a importância do brincar mostram que a brincadeira vai além do lazer, constituindo-se um instrumento essencial para o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e emocional da criança. No entanto, em um contexto marcado pelo excesso de telas e estímulos prontos, observa-se uma dificuldade crescente das crianças em brincar sozinhas de forma criativa e sustentada.

Atualmente, muitas crianças apresentam dificuldades em se entreter sem o uso de dispositivos eletrônicos ou sem direcionamento adulto, demonstrando pouco repertório para imaginar, planejar e manter uma brincadeira por conta própria. Diferentemente do brincar tradicional, no qual a criança cria regras, personagens e situações simbólicas, as telas oferecem conteúdos prontos, o que tende a limitar a imaginação, a iniciativa e a autonomia infantil. Esse cenário impacta diretamente a capacidade da criança de lidar com o tédio, de organizar o pensamento e de sustentar a atenção por períodos mais longos.

O brincar sozinho desempenha um papel importante no desenvolvimento emocional, pois permite que a criança elabore sentimentos, frustrações e vivências do cotidiano por meio do faz de conta. Nesse processo, a criança aprende a se autorregular, a tolerar o tempo de espera e a encontrar soluções criativas para seus próprios desafios. Além disso, o brincar autônomo favorece o desenvolvimento cognitivo, estimulando funções como planejamento, concentração, memória, imaginação e resolução de problemas.

Quando a criança brinca sozinha, desenvolve maior autonomia emocional e cognitiva, aprendendo a se organizar internamente, a sustentar o interesse por uma atividade e a lidar com o próprio tempo e com o tédio. Esse tipo de experiência favorece a capacidade de concentração, o planejamento da brincadeira e a elaboração simbólica de vivências e sentimentos, reduzindo a dependência constante do adulto ou de estímulos externos.

Nesse sentido, garantir tempo, espaço e materiais que favoreçam o brincar livre e individual torna-se fundamental, especialmente em um contexto marcado pelo uso excessivo de telas, que frequentemente limita as oportunidades de criação e imaginação. Promover o brincar sozinho contribui para o fortalecimento da autonomia, da criatividade e da saúde emocional, favorecendo aprendizagens mais profundas e significativas ao longo do desenvolvimento infantil.

Dra. Cynthia Borges de Moura – CRP 08/5822

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

LIRA, Natali Alves Barros; RUBIO, Juliana de Alcântara Silveira. A importância do brincar na educação infantil. Revista Eletrônica Saberes da Educação, v. 5, n. 1, 2014.

TANA, Caroline Mundim; AMÂNCIO, Natália de Fátima Gonçalves. Consequências do tempo gasto em frente às telas na vida de crianças e adolescentes. Research, Society and Development, v. 12, n. 1, 2023.

BRITO JUNIOR, Wander Medeiros de. O excesso de tempo frente às telas e os resultados sobre os possíveis impactos no desenvolvimento infantil. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciência da Computação) – Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Engenharia Elétrica e Informática, Campina Grande, PB, 2023.

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Choro na porta da escola: como ajudar seu filho a atravessar a separação com segurança

Para alguns pais, o início do ano letivo vem acompanhado de uma cena difícil: a criança chora, se agarra, pede para não entrar na escola ou tenta negociar a volta para casa. Isso costuma acontecer justamente no momento da separação — na porta da escola, no corredor ou ao entrar na sala.

Esse tipo de reação não significa que a escola seja ruim, que a criança não esteja pronta ou que algo esteja “dando errado”. Na maioria das vezes, trata-se de uma dificuldade específica com a separação, intensificada pelas mudanças recentes de rotina e pela necessidade de se desligar da presença dos pais.

O que a criança vive nesse momento

Na hora da despedida, o desconforto da criança é real. O corpo reage antes que ela consiga organizar pensamentos ou palavras. Choro, tensão e recusa são tentativas de manter por perto aquilo que traz segurança: a figura de apego.

Por isso, esse momento exige menos explicação e mais apoio emocional. A criança não precisa ser convencida de que a escola é boa; ela precisa sentir que os adultos acreditam que ela consegue atravessar aquele desconforto.

Algumas atitudes dos pais que fazem diferença no momento da separação

  • Mantenha uma despedida clara, breve e firme.
  • Evite prolongar o momento com negociações, promessas ou voltas repetidas.
  • Valide o sentimento (“Eu sei que é difícil”), mas sem abrir espaço para dúvidas (“Talvez você volte”).
  • Transmita confiança na escola e nos profissionais, mesmo que por dentro você esteja inseguro.

Quando a despedida se estende demais, a mensagem que chega à criança é que aquele ambiente talvez não seja seguro o suficiente – e isso aumenta a ansiedade, em vez de aliviar.

O que costuma atrapalhar (mesmo sem intenção)

  • Ameaçar ou pressionar
  • Comparar com outras crianças
  • Prometer recompensas exageradas
  • Permanecer escondido “caso precise voltar”

Essas atitudes mantêm a criança presa à ideia de fuga, dificultando que ela se reorganize emocionalmente dentro da sala.

Separar-se também é uma aprendizagem

Aprender a se separar é parte importante do desenvolvimento emocional. Quando o adulto sustenta esse momento com firmeza e afeto, ajuda a criança a construir confiança em si mesma e no mundo fora de casa.

Com o tempo, a maioria das crianças atravessa essa fase e passa a entrar na escola com mais tranquilidade. O desconforto inicial não precisa, e não deve, se transformar em sofrimento prolongado.

Quando é hora de buscar ajuda

Se o choro e a recusa persistem por muitas semanas, se se intensificam oucomeçam a impactar o sono, o comportamento ou a aprendizagem, é importante buscar ajuda profissional. O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o que está dificultando essa separação e orientar a família de forma individualizada.

Você não precisa enfrentar esse momento sozinho. Em alguns casos, poucas sessões já são suficientes para reorganizar esse processo e devolver mais segurança à criança – e aos pais.

Psic. Dra. Cynthia Borges de Moura
CRP 08/5822

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

RODRIGUES, Nathalia Bentes. Ansiedade infantil: percepção de professores de crianças no início da vida escolar. 2025. 32 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia) – Universidade Federal do Amazonas, Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia de Parintins, Parintins, 2025.

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Volta às Aulas: Como Retomar o Ritmo Sem Estresse?

A volta às aulas é sempre um momento esperado, e não envolve apenas material novo e sala nova. Ela traz uma série de adaptações importantes para a criança e para a família. Depois das férias, retomar o ritmo pode ser um desafio, mas algumas práticas simples tornam esse processo muito mais leve e previsível.

Previsibilidade reduz ansiedade

Muitas vezes, irritação, resistência ou ansiedade não são sinais de “birra”, mas de falta de previsibilidade. A criança precisa entender o que vai acontecer para se sentir segura. Por isso, começar a organização antes do primeiro dia de aula é essencial. Explique, mas não complique: é melhor repetir orientações simples do que fazer discursos longos e difíceis de acompanhar.

Ajuste gradualmente os horários de dormir e acordar, retome a rotina aos poucos, revise o que realmente precisa ser comprado, organize o material e prepare o uniforme. Envolver a criança nessas etapas ajuda a construir um sentimento de controle e segurança — tudo fica menos “de repente” e mais previsível. Vale até transformar o processo em uma brincadeira: façam juntos uma contagem regressiva, riscando no calendário quantos dias faltam para o recomeço.

Cuidado com os exageros

E aqui vai um ponto importante: não é preciso transformar esse momento em uma maratona de consumo. A criança precisa de um caderno — não do mais caro e nem do personagem do momento. Também não precisa de um tênis caríssimo que provavelmente será arrebentado no futebol do recreio.

O que ela realmente precisa é pertencimento: sentir-se igual aos colegas, incluída, parte do grupo. Pertencimento não se constrói com itens de luxo; se constrói com experiência, convivência e acolhimento. Exageros financeiros, além de desnecessários, criam expectativas que não têm relação direta com o bem-estar escolar e não contribuem para a socialização nem para o sucesso acadêmico da criança.

A adaptação vai além do acadêmico

Outro ponto que merece destaque: a volta às aulas não é apenas acadêmica. Ela é emocional, social e afetiva. A criança precisa de tempo para se reorganizar internamente, reencontrar colegas, lidar com professores novos, ajustar-se às regras e redescobrir o ritmo escolar.

Algumas atitudes ajudam muito: passe com seu filho em frente à escola dias antes, leve-o junto no dia da matrícula, evite chegar em cima da hora no primeiro dia de aula. E só entre na sala com ele se for realmente necessário. Escola não funciona com pais dentro — e quanto mais natural for essa separação, mais segura a criança se sentirá.

Quando buscar ajuda

Se você perceber que seu filho está encontrando mais dificuldade do que o esperado para retomar a rotina ou apresentar sofrimentos acentuados nas primeiras semanas de aula, saiba que você não precisa enfrentar isso sozinho. Nossa equipe está aqui para ajudar seu filho a se adaptar com mais segurança, leveza e acolhimento.

Marque uma consulta. Podemos orientar você — e, às vezes, algumas poucas sessões são suficientes para ajudar seu pequeno a se ajustar às novas exigências escolares.

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Referências:

CORREIA-ZANINI, Marta Regina Gonçalves; MARTURANO, Edna Maria; FONTAINE, Anne Marie Germaine Victorine. Adaptação à escola de ensino fundamental: indicadores e condições associadas. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 68, n. 1, p. 19-34, 2016.

FIRMINO, Mainara Vitoriano de Lima. Entre choros e risos: adaptação escolar: concepções de professoras da educação infantil. 2023. 40 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Natal, 2023.

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