O brincar sozinho na infância em tempos de excesso de telas

O brincar é uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil, pois possibilita à criança explorar o mundo, expressar sentimentos e construir conhecimentos a partir de suas próprias experiências. Estudos sobre a importância do brincar mostram que a brincadeira vai além do lazer, constituindo-se um instrumento essencial para o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social e emocional da criança. No entanto, em um contexto marcado pelo excesso de telas e estímulos prontos, observa-se uma dificuldade crescente das crianças em brincar sozinhas de forma criativa e sustentada.

Atualmente, muitas crianças apresentam dificuldades em se entreter sem o uso de dispositivos eletrônicos ou sem direcionamento adulto, demonstrando pouco repertório para imaginar, planejar e manter uma brincadeira por conta própria. Diferentemente do brincar tradicional, no qual a criança cria regras, personagens e situações simbólicas, as telas oferecem conteúdos prontos, o que tende a limitar a imaginação, a iniciativa e a autonomia infantil. Esse cenário impacta diretamente a capacidade da criança de lidar com o tédio, de organizar o pensamento e de sustentar a atenção por períodos mais longos.

O brincar sozinho desempenha um papel importante no desenvolvimento emocional, pois permite que a criança elabore sentimentos, frustrações e vivências do cotidiano por meio do faz de conta. Nesse processo, a criança aprende a se autorregular, a tolerar o tempo de espera e a encontrar soluções criativas para seus próprios desafios. Além disso, o brincar autônomo favorece o desenvolvimento cognitivo, estimulando funções como planejamento, concentração, memória, imaginação e resolução de problemas.

Quando a criança brinca sozinha, desenvolve maior autonomia emocional e cognitiva, aprendendo a se organizar internamente, a sustentar o interesse por uma atividade e a lidar com o próprio tempo e com o tédio. Esse tipo de experiência favorece a capacidade de concentração, o planejamento da brincadeira e a elaboração simbólica de vivências e sentimentos, reduzindo a dependência constante do adulto ou de estímulos externos.

Nesse sentido, garantir tempo, espaço e materiais que favoreçam o brincar livre e individual torna-se fundamental, especialmente em um contexto marcado pelo uso excessivo de telas, que frequentemente limita as oportunidades de criação e imaginação. Promover o brincar sozinho contribui para o fortalecimento da autonomia, da criatividade e da saúde emocional, favorecendo aprendizagens mais profundas e significativas ao longo do desenvolvimento infantil.

Dra. Cynthia Borges de Moura – CRP 08/5822

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

LIRA, Natali Alves Barros; RUBIO, Juliana de Alcântara Silveira. A importância do brincar na educação infantil. Revista Eletrônica Saberes da Educação, v. 5, n. 1, 2014.

TANA, Caroline Mundim; AMÂNCIO, Natália de Fátima Gonçalves. Consequências do tempo gasto em frente às telas na vida de crianças e adolescentes. Research, Society and Development, v. 12, n. 1, 2023.

BRITO JUNIOR, Wander Medeiros de. O excesso de tempo frente às telas e os resultados sobre os possíveis impactos no desenvolvimento infantil. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Ciência da Computação) – Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Engenharia Elétrica e Informática, Campina Grande, PB, 2023.

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Volta às Aulas: Como Retomar o Ritmo Sem Estresse?

A volta às aulas é sempre um momento esperado, e não envolve apenas material novo e sala nova. Ela traz uma série de adaptações importantes para a criança e para a família. Depois das férias, retomar o ritmo pode ser um desafio, mas algumas práticas simples tornam esse processo muito mais leve e previsível.

Previsibilidade reduz ansiedade

Muitas vezes, irritação, resistência ou ansiedade não são sinais de “birra”, mas de falta de previsibilidade. A criança precisa entender o que vai acontecer para se sentir segura. Por isso, começar a organização antes do primeiro dia de aula é essencial. Explique, mas não complique: é melhor repetir orientações simples do que fazer discursos longos e difíceis de acompanhar.

Ajuste gradualmente os horários de dormir e acordar, retome a rotina aos poucos, revise o que realmente precisa ser comprado, organize o material e prepare o uniforme. Envolver a criança nessas etapas ajuda a construir um sentimento de controle e segurança — tudo fica menos “de repente” e mais previsível. Vale até transformar o processo em uma brincadeira: façam juntos uma contagem regressiva, riscando no calendário quantos dias faltam para o recomeço.

Cuidado com os exageros

E aqui vai um ponto importante: não é preciso transformar esse momento em uma maratona de consumo. A criança precisa de um caderno — não do mais caro e nem do personagem do momento. Também não precisa de um tênis caríssimo que provavelmente será arrebentado no futebol do recreio.

O que ela realmente precisa é pertencimento: sentir-se igual aos colegas, incluída, parte do grupo. Pertencimento não se constrói com itens de luxo; se constrói com experiência, convivência e acolhimento. Exageros financeiros, além de desnecessários, criam expectativas que não têm relação direta com o bem-estar escolar e não contribuem para a socialização nem para o sucesso acadêmico da criança.

A adaptação vai além do acadêmico

Outro ponto que merece destaque: a volta às aulas não é apenas acadêmica. Ela é emocional, social e afetiva. A criança precisa de tempo para se reorganizar internamente, reencontrar colegas, lidar com professores novos, ajustar-se às regras e redescobrir o ritmo escolar.

Algumas atitudes ajudam muito: passe com seu filho em frente à escola dias antes, leve-o junto no dia da matrícula, evite chegar em cima da hora no primeiro dia de aula. E só entre na sala com ele se for realmente necessário. Escola não funciona com pais dentro — e quanto mais natural for essa separação, mais segura a criança se sentirá.

Quando buscar ajuda

Se você perceber que seu filho está encontrando mais dificuldade do que o esperado para retomar a rotina ou apresentar sofrimentos acentuados nas primeiras semanas de aula, saiba que você não precisa enfrentar isso sozinho. Nossa equipe está aqui para ajudar seu filho a se adaptar com mais segurança, leveza e acolhimento.

Marque uma consulta. Podemos orientar você — e, às vezes, algumas poucas sessões são suficientes para ajudar seu pequeno a se ajustar às novas exigências escolares.

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SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

CORREIA-ZANINI, Marta Regina Gonçalves; MARTURANO, Edna Maria; FONTAINE, Anne Marie Germaine Victorine. Adaptação à escola de ensino fundamental: indicadores e condições associadas. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 68, n. 1, p. 19-34, 2016.

FIRMINO, Mainara Vitoriano de Lima. Entre choros e risos: adaptação escolar: concepções de professoras da educação infantil. 2023. 40 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Pedagogia) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Natal, 2023.

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Rapport com crianças: o segredo da conexão na terapia infantil

Você já ouviu a palavra rapport?
Ela parece um termo complicado, usado apenas por quem estuda psicologia ou trabalha com relações humanas, mas, na verdade, o rapport está presente nas nossas interações do dia a dia — e tem um papel essencial na terapia com crianças.

Pense naquela conversa com um amigo em que você se sente completamente à vontade. Você sabe que pode falar sobre qualquer coisa, que será ouvido e compreendido, sem julgamentos.
Isso é o rapport em ação.

O que é rapport?

Na Psicologia Clínica, o rapport é o que cria uma relação harmônica e empática entre terapeuta e paciente. É a base da chamada aliança terapêutica — o vínculo de confiança que sustenta o processo de tratamento.

Pesquisas mostram que, quando o terapeuta adota uma postura genuína de acolhimento, interesse e aceitação, o paciente tende a se sentir mais confortável, compreendido e seguro. E esse sentimento de confiança tem impacto direto nos resultados da terapia.

E com crianças, como isso funciona?

Muita gente acredita que as crianças não conseguem expressar suas preferências, sentimentos ou pensamentos de forma clara. Mas isso não é verdade!
As crianças têm muito a nos dizer — e quanto mais o terapeuta entende o seu universo, mais ele consegue usar o rapport para criar uma conexão verdadeira.

Essa conexão é o que torna a terapia possível. Sem ela, dificilmente há engajamento, abertura emocional ou mudança de comportamento.

Por que o rapport é tão importante na terapia infantil?

1. Aumenta a motivação.
Quando a criança se sente compreendida, ela quer participar, colaborar e se envolver no processo terapêutico.

2. Cria confiança.
E confiança é o que permite que ela se abra emocionalmente, compartilhe suas experiências e fale sobre o que sente.

3. Facilita as mudanças de comportamento.
Quando existe vínculo, ensinar algo novo ou propor desafios se torna muito mais fácil e natural.

Conexão vai além de carinho

Muitos pensam que criar conexão é apenas ser afetuoso — mas o rapport vai muito além disso. Ele envolve atenção, escuta ativa, curiosidade genuína e envolvimento real com o mundo da criança.

Criamos conexão quando:

  • Brincamos juntos. 
  • Observamos suas preferências e interesses.
  • Conversamos sobre temas que fazem parte do seu cotidiano — o jogo de futebol, o desenho preferido, a escola, os amigos…
  • Rimos juntos, contamos uma piada, fazemos comentários que mostram presença e sintonia.

São esses momentos simples que constroem um relacionamento de confiança e tornam a terapia significativa.

Perguntar o que a criança gosta, ouvir com atenção aquela história longa e cheia de detalhes, propor uma brincadeira divertida… tudo isso é parte essencial do processo. É assim que se constrói o rapport — um vínculo de confiança e empatia que faz o processo terapêutico acontecer de verdade. 

Na Clínica Terapia Criativa, acreditamos que o vínculo vem antes de qualquer técnica. Por isso, valorizamos o tempo de conexão, escuta e brincadeira como parte fundamental do processo terapêutico.

Psic. Dra. Cynthia Borges de Moura

CRP 08/5822


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:Carvalho, Cibele, Fiorini, Guilherme Pacheco, & Ramires, Vera Regina Röhnelt. (2015). Aliança terapêutica na psicoterapia de crianças: uma revisão sistemáticaPsico46(4), 503-512. Acesso:  https://doi.org/10.15448/1980-8623.2015.4.19139

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Ajudando crianças a lidarem com pensamentos difíceis!

Você sabia que nem sempre o que muda primeiro é o pensamento? Muita gente acredita que basta “pensar positivo” para se sentir melhor, para promover mudanças  — mas, na prática, não é bem assim.

Na verdade, é o comportamento que costuma vir antes — e é ele que muda e transforma, aos poucos, a forma de sentir e de pensar.

Pense nas crianças que dizem:

“Eu não sou capaz.”
“Eu nunca acerto.”
“Não adianta tentar.”

Esses pensamentos não desaparecem só porque dizemos o contrário.
Frases como “claro que você consegue!” ou “acredite em você” têm boas intenções, mas raramente são suficientes.

É preciso que as crianças vivenciem situações reais de sucesso, superação e prazer em perceber que conseguem de verdade. É isso que impacta o que elas sentem e  pensam sobre si mesmas e suas competências.

Na terapia comportamental, o foco não está em mudar o pensamento diretamente, e sim em criar experiências concretas que provem o contrário.
E como fazemos isso?

  • Propondo pequenas tarefas em que a criança se saia bem. 
  • Reforçando cada conquista — mesmo aquelas que parecem simples. 
  • Desenvolvendo novas habilidades que mostram, na prática: “Ei, eu consigo!”

Quando o comportamento muda, o sentimento muda junto —
e o pensamento se reorganiza naturalmente. A criança começa a se ver de outro jeito: mais confiante, mais competente e mais motivada. 

Na Terapia Criativa, criamos experiências assim todos os dias: vivências que fortalecem o emocional, aumentam a autonomia e geram resultados reais no cotidiano das crianças e adolescentes.

Quer aprender como estimular isso em casa, no dia a dia com seu filho?
Entre em contato com nossa equipe — será um prazer conversar com você!

Psic. Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112


SE VOCÊ É PROFISSIONAL E QUER SABER MAIS, PODE LER TAMBÉM:

Referências:

Lara, A. C. D., Carvalho, T. M., & Teodoro, M. L. M. (2021). Relações familiares e cognições disfuncionais de adolescentes: uma revisão sistemática. Revista Psicologia em Pesquisa, 15. Acesso: https://doi.org/10.34019/1982-1247.2021.v15.29297

Moura, C.B. & Venturelli, M.B. “Direcionamentos para a condução do processo psicoterapêutico comportamental com crianças”. Paideia (Ribeirão Preto), vol.14, n.29, 2004. Acesso: https://rbtcc.com.br/RBTCC/article/view/62/51

Tavares, H. L. S. (2011). Crenças disfuncionais: semelhanças entre pais e filhos [Monografia de Especialização, Universidade Federal de Minas Gerais]. UFMG Repositório. Acesso: https://repositorio.ufmg.br/server/api/core/bitstreams/594e845c-b78e-49bd-a323-5a5e4b1a4245/content

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