“Ah, foi só uma brincadeira.” Quantas vezes essa frase aparece depois que uma criança se sente constrangida, envergonhada ou magoada com um sarrinho adulto? Mas existe uma verdade simples e inegociável: se machuca, não é brincadeira.
A criança não interpreta como o adulto
No desenvolvimento infantil, há um ponto fundamental: a criança não processa ironia, sarcasmo ou “zoação leve” da mesma forma que um adulto. O cérebro dela ainda está em construção — especialmente as áreas responsáveis por interpretação social complexa, flexibilidade cognitiva e regulação emocional.
Quando uma criança sente medo, vergonha ou exposição, o cérebro não registra aquilo como “humor”, mas sim como ameaça, da qual precisa se defender.
O que acontece no corpo da criança?
Diante de uma situação percebida como humilhante ou assustadora, o sistema nervoso entra em estado de alerta. O corpo libera hormônios do estresse, a atenção fica voltada para se proteger e não para refletir. Nesse estado, não há espaço para: aprender, elaborar emoções, desenvolver repertório social ou construir confiança. Há apenas autodefesa.
Algumas crianças reagem atacando. Outras se retraem. Outras riem sem graça para tentar pertencer. E repetidas experiências assim podem ensinar algo perigoso: “minhas relações não são seguras.”
“Mas eu estava só brincando…”
Muitos adultos usam a provocação como forma de interação. Às vezes foi assim que aprenderam a demonstrar afeto. Às vezes não percebem o impacto. O problema não é a intenção. É o efeito.
Se a criança diz que não gostou, se ela abaixa o olhar, se encolhe, se silencia ou reage com irritação — ali existe um sinal que não deve ser ultrapassado.
Respeitar esse pedido de “pare” é importante para ensinar limite saudável, que é possível ajustar a interação.
E, quando erramos (porque todos erramos), é possível fazer algo poderoso:
parar e pedir desculpas. Isso ensina muito mais do que qualquer discurso.
Segurança emocional é base para autorregulação
Educar não é endurecer para fortalecer. Educar é construir segurança.
A autorregulação nasce da previsibilidade e do vínculo seguro. A criança aprende a regular suas emoções quando vive relações em que é respeitada, ouvida, levada a sério. E uma criança em modo de autodefesa não está disponível para crescer — está tentando sobreviver emocionalmente.
A pergunta que transforma
Antes de continuar uma brincadeira, vale perguntar: “Isso está sendo divertido para nós dois?”
Se não está sendo para a criança, não é brincadeira compartilhada — é imposição. E a interação que realmente educa não humilha, não expõe, não diminui. Ela constrói.
Psic. Keila Franco
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Referências:
FISCHER, Marcela; FORNECK, Kári Lúcia. O ensino da compreensão da ironia na educação infantil: uma abordagem pragmática. Revista de Letras, Curitiba, v. 25, n. 46, p. 122–143, jan./jun. 2023.
SEIXAS, Netília Silva dos Anjos. A linguagem nas crianças além do sentido literal. Movendo Ideias, Belém, v. 16, n. 2, ago./dez. 2011.




