Quando o silêncio fala – Nem toda criança quieta está em paz por dentro!
Nem sempre uma criança silenciosa é sinônimo de uma criança calma. Crianças quietas por fora podem estar profundamente inquietas por dentro.
Às vezes, o que parece tranquilidade é, na verdade, um pedido de ajuda disfarçado de silêncio.
Sabe aquela criança que se isola, evita contato, fala pouco? Pode ser que ela esteja lidando com insegurança, medo, ansiedade…
Ou talvez tenha aprendido que incomoda quando fala.
O silêncio, muitas vezes, funciona como um escudo – uma forma de se proteger de algo que a sobrecarrega emocionalmente. Por isso, antes de concluir que “se ela não está reclamando, está tudo bem”, vale se perguntar: por que ela se cala? O que ela cala?
Mas é importante lembrar que o silêncio também pode ser um pedido de socorro.
Algumas crianças e adolescentes se calam não por escolha, mas porque estão tentando denunciar algo grave que acontece em seu meio familiar ou escolar. O que não conseguem colocar em palavras, revelam de forma sutil — em uma brincadeira, na elaboração de um texto, em desenhos que expressam medo.
Esses sinais exigem um olhar atento. Infelizmente, esse olhar nem sempre é possível em meio à rotina exaustiva de pais que, na luta pela sobrevivência, acabam sem tempo — ou sem condições emocionais — para perceber o sofrimento dos filhos.
E, assim, situações sérias passam despercebidas: crianças que enfrentam depressão, abusos ou agressões podem continuar caladas, sem que ninguém note o que estão tentando dizer com o silêncio.
Ouvir uma criança vai muito além de escutar suas palavras. Significa criar espaço para o diálogo, oferecer presença real e validar o que ela sente. Essas atitudes constroem segurança emocional — o terreno fértil para que ela volte a se expressar.
Lembro de uma paciente de seis anos, filha de mãe solo, que nunca havia perguntado sobre o pai. A mãe acreditava que ela não se importava. Mas nas sessões, a menina sempre perguntava sobre o pai dos brinquedos, dos bichinhos de pelúcia. Queria saber se ele tinha ido embora, se tinha ido embora porque não gostava do filhinho.
O silêncio dela não era ausência de sentimentos — era o jeito que encontrou de lidar com o silêncio dos adultos, com um assunto proibido na casa.
A escuta atenta é o primeiro passo para transformar o silêncio em conexão. Quando uma criança se sente ouvida e compreendida, ela começa a reencontrar suas palavras, suas perguntas e seu lugar no próprio mundo.
E esse mundinho — pequeno aos olhos dos adultos — é tão importante quanto o nosso.
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Referências:
CAVALCANTE, Giovana Albiero Dellosso. Os silenciamentos aos sentimentos das crianças pequenas. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) – Universidade Federal de São Carlos, campus Sorocaba, Sorocaba, SP, 2023.




