“Doutora… parece que piorou depois que começou a terapia.”

Essa é uma das frases que mais escuto nas primeiras semanas de acompanhamento infantil. E sempre que ela aparece, vem acompanhada de preocupação, dúvida e, às vezes, até culpa. A sensação dos pais é de que algo deu errado. Afinal, se a criança começou a terapia para melhorar, por que agora está mais irritada, mais sensível ou mais “respondona”?

O que muitos não sabem é que esse movimento pode, sim, fazer parte do processo terapêutico — e não significa retrocesso.

Quando a criança começa a se autorizar a sentir

Quando a terapia começa, a criança encontra um espaço seguro para falar, sentir e experimentar novas formas de se posicionar. Muitas vezes, ela passa anos guardando emoções, engolindo frustrações, tentando se adaptar ou simplesmente não encontrando palavras para o que sente. Na terapia, ela descobre que pode se expressar sem ser julgada, que pode dizer “não gostei”, “fiquei bravo”, “me senti injustiçado”. Esse fortalecimento da autoconfiança, da expressividade e da assertividade pode, no início, dar a impressão de que ela está mais desafiadora.

Mas é importante entender: não é que a criança ficou pior. É que agora ela está mais autorizada a existir emocionalmente. Aquilo que estava represado, sem espaço e sem escuta, começa a aparecer. E, às vezes, aparece como um turbilhão mesmo. Emoções que antes ficavam reprimidas podem surgir com intensidade. Limites passam a ser testados. Questionamentos aparecem. Não porque a terapia desorganizou a criança, mas porque está ajudando a reorganizar por dentro.

A “bagunça” faz parte da reorganização

Eu costumo comparar esse momento a uma faxina. Quando decidimos arrumar um ambiente muito bagunçado, precisamos primeiro tirar as coisas do lugar. Abrimos armários, espalhamos objetos, mexemos em tudo. Por um momento, parece que está ainda mais desorganizado do que antes. Mas essa “bagunça temporária” é parte do processo de limpeza e reorganização. Sem esse movimento inicial, nada realmente muda.

Com a criança acontece algo semelhante. O início da terapia pode trazer à tona conteúdos que estavam guardados, sentimentos que não tinham espaço e comportamentos que agora estão sendo experimentados de forma mais consciente. É uma fase de ajuste interno. E todo ajuste exige tempo.

O papel da família nessa fase

Por isso, se você perceber esse tipo de mudança, não enfrente isso sozinho. Converse com o terapeuta do seu filho. Pergunte como manejar determinadas situações em casa, peça orientações práticas e alinhe estratégias. A parceria entre família e terapeuta é fundamental nesse momento. Com manejo adequado, constância e coerência, essa fase tende a se estabilizar.

E, aos poucos, aquilo que parecia desorganização começa a se transformar em algo muito mais estruturado: uma criança mais consciente de si, mais capaz de nomear o que sente e mais segura para se posicionar de maneira saudável.

O equilíbrio que você espera não está sendo construído. Pode confiar.

Psic. Samira Khaled Saleh

CRP 08/12112

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Referências:

ALMEIDA, Maria Emanuelly Figueiredo. Regulação emocional infantil: percepção dos pais sobre a criança em psicoterapia. 2022. 48 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Psicologia) – Centro Universitário de Patos, Patos, PB, 2022.