Se você convive com um adolescente, provavelmente já ouviu alguém dizer: “Isso é coisa da idade”. Mudanças de humor, respostas atravessadas, impaciência e momentos de irritabilidade costumam fazer parte do imaginário popular sobre a adolescência.
De fato, a adolescência é um período marcado por intensas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais. Mas isso não significa que toda irritabilidade seja “normal”. O desafio está em diferenciar aquilo que faz parte do desenvolvimento esperado do que pode indicar sofrimento emocional.
Por que os adolescentes ficam mais irritados?
Durante a adolescência, o cérebro passa por importantes mudanças. Áreas relacionadas ao controle dos impulsos, planejamento e regulação emocional ainda estão em desenvolvimento, enquanto sistemas ligados às emoções e à busca por recompensas tornam-se mais ativos.
Além disso, o adolescente enfrenta diversos desafios simultaneamente: mudanças corporais, maior cobrança acadêmica, construção da identidade, ampliação das relações sociais e busca por autonomia.
Nesse contexto, é esperado que ocorram:
- Oscilações de humor.
- Maior sensibilidade a críticas.
- Discussões ocasionais com pais e responsáveis.
- Impaciência em algumas situações.
- Reações emocionais mais intensas diante de frustrações.
Esses comportamentos, quando transitórios e proporcionais às situações vividas, costumam fazer parte do desenvolvimento típico.
Quando a irritabilidade deixa de ser apenas uma fase?
Alguns sinais que merecem atenção incluem:
- Irritabilidade presente na maior parte dos dias.
- Explosões de raiva desproporcionais aos acontecimentos.
- Conflitos constantes em casa, na escola e com amigos.
- Queda importante no rendimento escolar.
- Isolamento social.
- Alterações significativas no sono ou no apetite.
- Perda de interesse por atividades antes prazerosas.
- Comportamentos agressivos ou autodestrutivos.
A preocupação surge quando a irritabilidade passa a ser intensa, frequente e persistente, afetando diferentes áreas da vida do adolescente. Mais do que a intensidade de um episódio isolado, o que costuma diferenciar a normalidade da patologia é a frequência, a duração e o impacto desses comportamentos no funcionamento diário.
Irritabilidade pode ser sinal de transtornos emocionais?
Sim. Embora muitas pessoas associem transtornos emocionais apenas à tristeza ou à ansiedade, a irritabilidade pode ser uma das principais manifestações de sofrimento psicológico na adolescência.
Ela pode estar presente em condições como:
- Transtornos de ansiedade.
- Depressão.
- Transtornos de humor.
- Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
- Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).
- Transtornos do sono.
- Situações de estresse intenso ou sobrecarga emocional.
Por isso, é importante olhar além da irritabilidade e tentar compreender o que pode estar acontecendo por trás dela.
Existem diferenças entre meninos e meninas?
Embora cada adolescente seja único, pesquisas mostram que meninos e meninas podem expressar sofrimento emocional de maneiras diferentes.
Nas meninas, é mais comum observar irritabilidade acompanhada de tristeza, ansiedade, autocobrança, retraimento social e sintomas internalizantes. Muitas vezes, o sofrimento aparece de forma mais silenciosa, por meio de preocupações excessivas, choro frequente ou sentimentos de inadequação.
Nos meninos, a irritabilidade pode se manifestar mais frequentemente por comportamentos externalizantes, como discussões, impulsividade, explosões de raiva, comportamentos desafiadores ou agressividade.
Isso não significa que meninas não possam ser agressivas ou que meninos também não possam apresentar tristeza e ansiedade. Essas diferenças representam tendências gerais e não regras. O mais importante é compreender que o sofrimento emocional pode assumir formas variadas, independentemente do gênero.
Nem tudo é adolescência
Um dos maiores riscos é atribuir qualquer mudança de comportamento à famosa “fase da adolescência”. Embora oscilações de humor e momentos de irritabilidade façam parte do desenvolvimento típico, o sofrimento emocional também pode surgir nesse período e merece atenção quando é intenso, persistente e traz prejuízos para a vida do adolescente.
A adolescência pode ser intensa, mas não precisa ser vivida em sofrimento constante. Quando pais, educadores e profissionais conseguem olhar além do comportamento e compreender o que ele está comunicando, torna-se mais fácil oferecer o apoio necessário no momento certo.
Psic. Dra. Cynthia Borges de Moura
CRP 08/5822
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Referências:
STEINBERG, Laurence. Cognitive and affective development in adolescence. Trends in Cognitive Sciences, Amsterdam, v. 9, n. 2, p. 69–74, fev. 2005. DOI: 10.1016/j.tics.2004.12.005.
CASEY, B. J.; JONES, Rebecca M.; HARE, Todd A. The adolescent brain. Annals of the New York Academy of Sciences, New York, v. 1124, n. 1, p. 111–126, 2008. DOI: 10.1196/annals.1440.010.







