Nem todo sofrimento emocional infantil aparece como sofrimento

Quando pensamos em uma criança que está passando por dificuldades emocionais, é comum imaginarmos alguém triste, chorando, irritado, agressivo ou com mudanças evidentes de comportamento. Esses sinais realmente podem indicar que algo não vai bem. Mas nem sempre o sofrimento infantil se manifesta dessa maneira.

Às vezes, acontece justamente o contrário: a criança parece estar muito bem. É obediente, organizada, independente, não dá trabalho e parece lidar com tudo com muita facilidade.

Mas será que está tudo bem?

Há muitos anos, uma menina de 6 anos chegou à terapia acompanhada pela mãe, que estava um pouco contrariada. Ela não acreditava que a filha precisasse de atendimento, mas a escola havia insistido.

A menina era uma criança extremamente “certinha”.

Não gostava de se sujar, organizava cuidadosamente seu lanche, não derramava o suco e não esfarelava as bolachas. Quando alguma coisa saía do lugar ou não acontecia como ela esperava, seus olhos se enchiam de lágrimas.

A professora percebeu que aquele comportamento merecia atenção.

Não porque a menina fosse desobediente ou apresentasse algum problema de comportamento, mas justamente porque havia uma rigidez e uma preocupação excessivas para a idade.

Esse caso ilustra algo importante: nem todo sofrimento emocional infantil aparece como tristeza ou mau comportamento. Às vezes, ele aparece como uma adaptação excessiva.

Quais sinais podem merecer atenção?

É importante lembrar que nenhum desses comportamentos, isoladamente, significa que uma criança esteja sofrendo emocionalmente.

Crianças têm diferentes temperamentos e fases de desenvolvimento. O que merece atenção é uma mudança significativa em relação ao funcionamento habitual, especialmente quando o comportamento se torna muito rígido, intenso ou começa a limitar a vida da criança.

  1. A criança para de reclamar

Uma criança que antes dizia o que queria, protestava, pedia ajuda e demonstrava quando algo a incomodava pode começar a aceitar tudo passivamente.

À primeira vista, isso pode parecer maturidade ou facilidade de lidar com as situações. Mas, dependendo do contexto, também pode indicar que a criança está deixando de expressar suas necessidades e sentimentos.

  1. Fica independente demais

Ela passa a não pedir ajuda, não procura os adultos e parece não precisar de ninguém.A independência é uma conquista importante do desenvolvimento. A questão é observar quando essa independência aparece de maneira muito intensa ou representa uma mudança brusca no comportamento da criança.

  1. Precisa controlar tudo

Algumas crianças passam a ter muita dificuldade quando algo sai do planejado. Querem saber antecipadamente o que vai acontecer, precisam que as coisas sejam feitas de determinada maneira e ficam muito incomodadas diante de mudanças.Em alguns casos, a tentativa de controlar o ambiente pode estar relacionada à necessidade de tornar as situações mais previsíveis e, portanto, mais fáceis de suportar.

  1. Fica excessivamente “certinha”

É a criança que parece estar sempre preocupada em fazer tudo certo, agradar os adultos, não errar e não incomodar.Ser responsável e cuidadosa não é um problema. O sinal de atenção aparece quando o medo de errar, desagradar ou sair do esperado começa a ocupar um espaço excessivo na vida da criança.

  1. Perde a espontaneidade

Esse talvez seja um dos sinais mais importantes e, muitas vezes, menos percebidos.A criança brinca menos, inventa menos, demonstra menos curiosidade, procura menos os adultos ou deixa de se entusiasmar com coisas que antes gostava.

Não necessariamente apareceu um comportamento-problema. Às vezes, simplesmente alguma coisa deixou de acontecer.E observar o que diminuiu no repertório da criança pode ser tão importante quanto observar aquilo que surgiu.

  1. Assume responsabilidades que não são dela

Algumas crianças começam a tentar evitar conflitos, cuidar do humor dos adultos, preocupar-se excessivamente com alguém da família ou agir como se precisassem “manter tudo bem”.Isso pode ser interpretado como maturidade, responsabilidade ou sensibilidade. Mas uma criança não deveria precisar assumir o papel de mediadora ou sustentação emocional da família.

 

Olhar para o que mudou

Quando pensamos em sofrimento emocional infantil, precisamos olhar não apenas para aquilo que a criança começou a fazer, mas também para aquilo que ela deixou de fazer.

Uma criança pode não estar chorando, não estar fazendo birra e não estar dando trabalho. Pode, inclusive, estar sendo elogiada por seu comportamento.E ainda assim alguma coisa pode estar acontecendo.Por isso, mais importante do que perguntar apenas “qual comportamento está errado?” é perguntar:O que mudou nessa criança?

Às vezes, o sinal não é uma criança difícil. É uma criança adaptada demais.

Se você percebe mudanças no comportamento do seu filho e não sabe se elas merecem atenção, nós podemos ajudar. Uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está por trás dessas mudanças, orientar os pais e identificar quando é importante intervir.

 

Dra. Cynthia Moura

CRP 08/5822


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Referências:

FAVA, D. C.; ANDRETTA, I.; MARIN, A. H. Problemas emocionais e de comportamento em crianças: fatores associados e preditivos. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, Rio de Janeiro, 2023. DOI: 10.5935/1808-5687.20230035.

 

GAUY, F. V.; GUIMARÃES, S. S. Triagem em saúde mental infantil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 22, n. 1, p. 005–016, 2006.

DOI: 10.1590/S0102-37722006000100002.